RADAMÉS GNATTALI – Porto Alegre RS – 27/01/1906 – Rio de Janeiro RJ – 03/02/1988
Pianista, compositor, arranjador e regente, foi um dos cinco filhos do músico italiano Alessandro Gnattali e da pianista gaúcha Adélia Fossati – com quem teve as primeiras aulas de piano, a partir do seis anos de idade. Quando ingressou no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre (1920), já dominava também o violino, o violão e o cavaquinho. Paralelamente ao ensino formal de Música (no qual foi aluno do pianista e musicólogo Guilherme Fontainha), trabalhou como músico em conjuntos de dança e como pianista de cinema mudo – ocupações que também terá no Rio de Janeiro, para onde se transfere na década de 20.
A necessidade de se sustentar faz que Radamés troque seu sonho – ser pianista de concerto – pela atividade de arranjador, que começa a desempenhar na década de 1930, em emissoras de rádio e gravadoras. O ponto de partida são os arranjos que escreve, na Victor, para gravações do cantor Orlando Silva – o primeiro destaque é a valsa Lábios que beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo), lançada em 1937. Em seguida, viriam outros sucessos com arranjos de sua autoria, como os sambas Aquarela do Brasil (de Ary Barroso, gravado por Francisco Alves em 39) e A voz do morro (de Zé Kéti, gravado por Jorge Goulart em 55) e os sambas-canções Copacabana (João de Barro e Alberto Ribeiro, gravado por Dick Farney em 46) e Sábado em Copacabana (Dorival Caymmi e Carlos Guinle, lançado por Lúcio Alves em 51).
Por arranjos como esses e por sua atuação longeva no rádio (com destaque para a Nacional, onde permaneceu por 30 anos), é considerado um dos formatadores da sonoridade da música popular brasileira nas décadas de 1930 a 50 – ao lado de Pixinguinha, de quem era admirador confesso. Tanto que foi um dos grandes intérpretes das composições de Pixinguinha, com destaque para os choros Cochichando, Lamentos, Um a zero e Carinhoso, todos arranjados e gravados por Radamés em mais de uma ocasião.
Sua admiração pode ser percebida também em suas próprias composições. Na suíte Retratos, composta por Radamés entre 1956 e 57 (para bandolim solista, regional e orquestra de cordas), o primeiro dos quatro movimentos se chama Pixinguinha. O LP que traz a primeira gravação de Retratos (lançado pela CBS em 1964, com Jacob do Bandolim, Radamés e orquestra) traz também o primeiro registro da valsa Uma rosa para Pixinguinha, outra composição de Radamés dedicada ao amigo. Já em 74 (ano seguinte à morte de Pixinguinha), a homenagem de Radamés viria no terceiro movimento da Sonatina para flauta e violão, intitulado Lembrando Pixinguinha.
Autor de uma vasta obra que vai de peças sinfônicas (como a Sinfonia popular) a choros (como Remexendo e Bate-papo, este um dos preferidos de Tom Jobim, seu discípulo mais famoso), Radamés transitou com desenvoltura entre os universos da música de concerto e da música popular, numa fronteira que, aliás, dizia desconhecer: “Só há dois tipos de música: a boa e a ruim. E pronto”.